A disputa narrativa sobre quem apoiou mais o agronegócio — se o governo atual ou a gestão anterior — ignora a métrica que realmente importa no campo: o custo do capital em relação à margem operacional do produtor. Enquanto o Plano Safra 2023/2024 bateu recorde nominal ao disponibilizar R$ 364,22 bilhões para a agricultura empresarial, a gestão anterior encerrou seu ciclo com R$ 317,5 bilhões na safra 2022/2023. A expansão de 14,7% no volume financeiro, no entanto, precisa ser calibrada pela taxa básica de juros e pelo custo dos insumos importados.
Com a Selic mantida no patamar de 13,75% ao ano, o crédito subsidiado perde eficiência na ponta final. O produtor rural enfrenta hoje uma taxa média equalizada substancialmente mais alta do que aquela vista entre 2019 e 2021, quando os juros básicos oscilaram nos menores níveis históricos. O diferencial de rentabilidade da lavoura não depende apenas do montante anunciado em Brasília, mas do poder de compra da commodity frente ao barril do petróleo WTI cotado a US$ 107,89, que inflaciona diretamente os custos com diesel e fertilizantes.
O que os dados revelam
Os dados do Tesouro Nacional e do Ministério da Agricultura mostram que o volume absoluto de recursos direcionados ao crédito rural cresceu de forma contínua em ambas as gestões. Durante a administração de Jair Bolsonaro, o montante total do Plano Safra subiu de R$ 222,74 bilhões (2019/2020) para R$ 317,5 bilhões (2022/2023), representando uma elevação nominal acumulada de 42,5%. Já na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, a soma dos recursos para a agricultura empresarial e agricultura familiar (Pronaf) superou a marca histórica de R$ 400 bilhões no ciclo 2023/2024.
Entretanto, o indicador que define a real capacidade produtiva é o volume financiado via títulos privados do agronegócio. A menor dependência do orçamento federal impulsionou as emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), que saltaram de um estoque de R$ 140 bilhões em 2019 para mais de R$ 400 bilhões recentemente. Esse movimento demonstra que a modernização do mercado de capitais para o setor, consolidada pela Nova Lei do Agro em 2020, reduziu o protagonismo relativo do Tesouro Nacional, independentemente de quem oponha a faixa presidencial.
Impacto por classe de ativo
No mercado acionário, empresas de insumos e máquinas agrícolas sentem o efeito direto da taxa final de juros do financiamento. O juro elevado inibe a renovação de frotas e reduz a margem de distribuidores de insumos listados na B3. Por outro lado, as grandes tradings e produtores exportadores travam suas margens aproveitando momentos em que o dólar opera em patamares elevados, como no nível atual de R$ 5,0377, garantindo receita em moeda forte para amortizar dívidas em reais.
Na renda fixa, a expansão das LCAs e CRAs continua capturando a poupança privada, mas a equalização de taxas do Plano Safra pressiona as contas públicas. Quanto maior a Selic, maior o custo para o Tesouro honrar a subvenção dos juros oferecidos aos pequenos e médios produtores, gerando um efeito colateral na curva longa de juros do país.
O que monitorar
O produtor rural deve acompanhar a capacidade de desembolso efetivo das linhas de crédito equalizadas ao longo do primeiro semestre. Eventuais travamentos na liberação de recursos por esgotamento de verba subvencionada forçarão a busca por financiamento privado a taxas livres, encarecendo a preparação da próxima safra.
Outra variável crítica é a volatilidade do petróleo WTI no mercado internacional. Com a cotação próxima dos US$ 108, a pressão sobre os preços dos combustíveis e fretes rodoviários exige gestão rígida de derivativos para travar margens antes do início da colheita.
