A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) intensificou as pressões sobre o governo federal para renegociar as dívidas dos produtores rurais e expandir a subvenção ao Seguro Rural. A combinação de quebras de safra decorrentes de eventos climáticos extremos com a queda na margem operacional expôs a fragilidade financeira do setor agropecuário, que responde por quase um quarto do PIB nacional.
O momento da cobrança é crítico: com o dólar cotado a R$ 5,4778, os custos de insumos importados como fertilizantes e defensivos continuam elevados, sufocando o capital de giro no campo. Ao mesmo tempo, o petróleo WTI negociado a US$ 99,64 impulsiona o frete e a logística de escoamento, criando uma tesoura de custos que compromete a rentabilidade da safra atual e eleva o risco de inadimplência sistêmica.
O que os dados revelam
Os indicadores de crédito rural mostram um salto relevante nos pedidos de recuperação judicial entre produtores pessoas físicas e jurídicas no último ano. A falta de um programa robusto de Seguro Rural — cujos recursos orçamentários caíram substancialmente em termos reais nos últimos exercícios — deixou o produtor desprotegido diante de secas prolongadas no Sul e excesso de chuvas em fases críticas no Centro-Oeste.
A dependência de prorrogações de dívidas por meio de resoluções do Conselho Monetário Nacional (CMN) deixou de ser solução temporária e virou rotina estrutural. Essa alavancagem excessiva desacelera a compra de máquinas agrícolas e reduz a demanda por fertilizantes de última geração, gerando um efeito dominó que atinge diretamente a cadeia de suprimentos instalada no país.
Impacto por classe de ativo
No mercado de renda variável, o estrangulamento do produtor atinge em cheio as empresas listadas na B3 ligadas ao setor agro. Produtoras de insumos e distribuidoras de máquinas enfrentam desaceleração de vendas e aumento do provisionamento contra devedores duvidosos. Por outro lado, grandes exportadoras de grãos e proteína animal conseguem amortecer o impacto via proteção cambial, embora sofram com a volatilidade dos preços internacionais.
Na renda fixa, os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) passam por escrutínio rigoroso do mercado. Títulos de emissores com maior exposição a produtores médios sem cobertura de seguro adequado registram ampliação nos spreads de crédito. Investidores exigem taxas mais altas para financiar operações que antes eram consideradas de baixíssimo risco.
O que monitorar
Nos próximos dias, a atenção se volta para os anúncios do Ministério da Agricultura quanto à liberação de suplementação orçamentária para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). Qualquer atraso na recomposição dessas verbas deve pressionar ainda mais as cotações das companhias agrícolas no pregão.
Também está no radar a próxima reunião do Conselho Monetário Nacional, que pode deliberar sobre diretrizes extraordinárias de renegociação de dívidas agrícolas. Até lá, a tendência é de maior seletividade do capital privado na concessão de novos financiamentos para a safra 2024/2025.