O mercado de soft commodities inicia a manhã sob forte pressão vendedora nas bolsas internacionais. Os contratos futuros do café arábica registram recuo de 3,2%, negociados a 182 centavos de dólar por libra-peso em Nova York, enquanto o açúcar bruto cede 2,8%, cotado a 21,4 centavos por libra-peso. O movimento contrasta com a valorização do petróleo WTI, cotado a US$ 107,89, que teoricamente favoreceria o mix alcooleiro nas usinas do Brasil.
A desaceleração reflete a combinação do avanço da colheita no Centro-Sul brasileiro com a readequação das posições dos fundos de investimento. Paralelamente, o dólar operando a R$ 5,0377 estimula a fixação de preços por parte dos exportadores brasileiros, acelerando a oferta de contratos na B3 e no exterior, o que pressiona as cotações expressas em moeda estrangeira.
O que os dados revelam
A correção nas cotações interrompe o ciclo recente de valorização e escancara a sensibilidade do mercado às estimativas da safra 2024/25. No caso do café, as chuvas recentes nas principais regiões produtoras de Minas Gerais e São Paulo afastaram os temores imediatos de quebra severa de produtividade, motivando uma rodada de realização de lucros por parte dos especuladores.
No setor sucroenergético, a dinâmica reflete o ritmo acelerado de moagem de cana-de-açúcar. Embora o barril de petróleo elevado a US$ 107,89 aumente a competitividade teórica do etanol anidro e hidratado nas bombas, a capacidade imediata de estocagem e a necessidade de caixa levam os grupos usineiros a priorizar a entrega de açúcar já contratado para exportação. A taxa de câmbio acima de R$ 5,00 garante margens operacionais atraentes em reais para as tradings, mesmo diante da retração das cotações em centavos de dólar.
Impacto por classe de ativo
Para o crédito agrícola e as empresas listadas na B3, o cenário exige seletividade estratégica. Produtoras e exportadoras puras de açúcar e etanol, como São Martinho e Raízen, enfrentam compressão momentânea de margem bruta nas vendas do mercado spot, embora a receita diferida em dólares amorteça o resultado do trimestre.
Na renda fixa agrária, os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) emitidos por grandes cooperativas cafeeiras mantêm baixo risco de inadimplência, mas demandam monitoramento sobre a capacidade de pagamento dos médios produtores que não realizaram travas de preço antecipadas. Com o custo do capital de giro elevado pela Selic, a ausência de hedge na B3 reduz drasticamente a margem líquida da fazenda.
O que monitorar
Nas próximas sessões, o produtor rural e o investidor do setor devem acompanhar três vetores decisivos:
- Relatórios de embarque nos portos: O volume de carregamento de açúcar nos terminais de Santos e Paranaguá indicará se o escoamento físico continuará pressionando as cotações internacionais.
- Posição dos fundos na CFTC: A atualização dos dados do regulador americano revelará se o movimento atual é apenas um ajuste técnico ou o início de uma tendência vendedora mais longa.
- Volatilidade do câmbio: Oscilações adicionais no dólar determinarão os novos pontos de gatilho para a fixação de vendas do café no mercado físico nacional.